Vontade de ir pra Barcelona
pra (te) esquecer
ou correr até a esquina
e gritar
o guarda mais próximo vai ouvir
"a escova de dentes é só minha!"
vontade de comprar
lenços e mantas
calcinhas novas
uma dentição mais branca
e uma mala nova pra encher com todas essas coisas
e partir
você não tem tempo pra me dar
eu não tenho vontade de esperar
você perdeu o interesse
o meu eu vou matando
buquês de flores não são cambiáveis
que pena
o dos outros sempre é melhor
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7 de nov. de 2011
19 de out. de 2011
psicografado por Charles Bukowski
Eram nove da noite, eu tinha discutido com ele -como sempre. Daí eu te liguei. Eu sempre te ligava quando não tinha outras pessoas pra falar. Disse rápido pra tu te arrumar que nessa noite a gente ia sair. E eu não aceitava nenhuma desculpa, as quais tu sempre arranjava. Tu tinhas medo do que poderia vir. Fomos naquele bar que eu sempre detestei muito e tu mais ainda. No fundo a gente também se detestava, mas havia um acordo de paz mútua, de ligar quando precisava e de noites passadas que voltamos juntos pra casa quando um precisava lançar mão pra carregar o outro. Quando a gente entrou tu sacou que eu já havia bebido muito, mas não disse nada. Pelo contrário, me trouxe mais bebida. Nada mais importava naquela noite, então eu bebi mais e tu tanto quanto. A gente se detestava, por isso eu podia passar a mão no teu cabelo sempre que a gente se via. Tu sempre aceitava e eu sei que ficava com o pau duro. Era natural. Desde a primeira vez que nos vimos depois que tu virou homem e eu passei a beber nas festas: era assim. Eu te provocava, tu sentia tesão e a noite era sempre igual: eu voltava pro meu namoradinho e tu pra tua casa. Mas naquela noite ia ser diferente. Tu sabia. Quando completou três horas que estávamos lá, bêbados e completamente fatigados daquela gente falando alto, tu me pegou a mão e fomos respirar o ar da rua. Caminhando até a minha casa eu só pensava "tu vai me comer hoje". Tu não te fez de rogado. Numa rua escura e deserta me colou no muro, me virou de costas, abaixou minha meia e, por baixo da saia, enfiou teu pau fundo, duro há horas. Eu não gritei e tu não precisou tapar minha boca. Tu gozou rápido, mas meteu de novo. Duro. Foi então que eu gozei, duas vezes. Na segunda gozamos juntos. Mordeu meu pescoço, me virou e beijou minha boca. Arrumei minha meia calça, eu não tinha nada pra te dizer. Nunca tive. Eu te detestava. Tu o mesmo. Entrei em casa com o coração disparado. Amanhã seria um lindo domingo de sol.
22 de set. de 2011
cindy lauper
cada gesto dela
os mais animados possíveis
cada sorriso seu
justificadamente cansados
são uma dança triunfal da única coisa que eu nunca tive: um passado de sorrisos compartilhados ao som de cindy lauper.
os mais animados possíveis
cada sorriso seu
justificadamente cansados
são uma dança triunfal da única coisa que eu nunca tive: um passado de sorrisos compartilhados ao som de cindy lauper.
21 de set. de 2011
18 de ago. de 2011
escolhas
É tudo questão de escolhas, sempre disseram. E eu sempre acreditei. Desdenhava da sorte, porque quem tem cada segundo de sua vida nas mãos não precisa de nenhum tipo de força sobrenatural. Mas então eu resolvi sair da casa dos meus pais e elaborar todo um plano fantástico pro meu futuro. Eu seria bem sucedida profissionalmente, nunca precisaria de ninguém, dançaria bêbada todas as sextas feiras e compraria minhoquinhas ácidas pra comer todos os dias antes de dormir. Não foi bem assim. Não é bem assim. A primeira coisa que eu aprendi na primeira semana sozinha é que ninguém quer ficar sozinho. Você pode aguentar almoçar seis vezes por semana: você e a televisão. Mas não sete. Nunca sete. Talvez por isso tantas pessoas tenham cachorros e gatos. Porque carinho, de qualquer tipo e de qualquer lugar, ao menos uma vez por semana, é bem vindo. A segunda coisa que nunca vou esquecer é como 'profissão' é apenas uma pequena parte da vida. Alguns acreditam ser a mais importante, mas esses, eu tenho certeza, não são felizes. E ser feliz não é uma coisa mágica, que precisa de muito esforço. Ser feliz é comer bem, passear, conhecer coisas novas, tomar umas doses de martini com suco de uva. E tudo isso com com quem a gente gosta. Não é difícil, mas nem todos conseguem. A terceira coisa, não menos incrível, que me dei conta desde que deixei de ser apenas mais uma da casa dos Wagner, pra construir minha própria casa: é fácil ser feliz, mas a vida não é fácil. É preciso muita ginga, é preciso gritar muito e espernear, é preciso sorrir muito e desdenhar. É fácil ser feliz, os passos são simples. Mas é difícil, dolorosamente difícil, saber a hora certa, ajeitar o caminho, encontrar os melhores companheiros de estrada para dar esses passos. Eu ainda acredito na importância das escolhas, mas eu não creio mais piamente que elas sejam conscientes o tempo todo, todo o sempre. Quando eu escolhi começar uma vida sozinha, eu não escolhi tomar apenas água todos os dias, nem o cano furado na cozinha. Mas cada escolha não vem sozinha. Uma escolha, um punhado de (in)conseqüências.
No one's gonna fool around with us.
No one's gonna fool around with us.
3 de ago. de 2011
morra
eu quero que você morra
cortar-te em fatias
fritar na gordura
comer espumando
mordida. ou fúria.
eu quero que você morra
pra congelar cada pedaço seu
e num futuro bem próximo
sem gritos, tapas ou roxos escondidos
expor-te no museu de casos perdidos.
eu quero que você morra
mas antes implore
por misericórdia e compaixão
me peça beijos
gema de tesão
soluce de medo
relembre cada instante
perdão, perdão.
e antes de morrer
vai suplicar
vai exigir que eu prometa
que cada ônibus que passar
não seja o último.
(se você quiser me entender: ouça o que eu não digo)
cortar-te em fatias
fritar na gordura
comer espumando
mordida. ou fúria.
eu quero que você morra
pra congelar cada pedaço seu
e num futuro bem próximo
sem gritos, tapas ou roxos escondidos
expor-te no museu de casos perdidos.
eu quero que você morra
mas antes implore
por misericórdia e compaixão
me peça beijos
gema de tesão
soluce de medo
relembre cada instante
perdão, perdão.
e antes de morrer
vai suplicar
vai exigir que eu prometa
que cada ônibus que passar
não seja o último.
(se você quiser me entender: ouça o que eu não digo)
17 de jul. de 2011
para o André e seu amigo
"(...) Basta dizer que era
outono em Porto Alegre.
Eu disse ao visitante:
- Está vendo?
As cores não se misturam:
tudo parece recortado
a tesourinha no horizonte.
A paisagem de Porto Alegre
é anterior ao impressionismo.
Ele agachava-se, apertava,
arregalava os olhos,
concordava com tudo.
E, de regresso ao Rio, escreveu:
Como eles não têm nada que
mostrar, gabam os crepúsculos!"
Mario Quintana, O mesmo Assunto.
outono em Porto Alegre.
Eu disse ao visitante:
- Está vendo?
As cores não se misturam:
tudo parece recortado
a tesourinha no horizonte.
A paisagem de Porto Alegre
é anterior ao impressionismo.
Ele agachava-se, apertava,
arregalava os olhos,
concordava com tudo.
E, de regresso ao Rio, escreveu:
Como eles não têm nada que
mostrar, gabam os crepúsculos!"
Mario Quintana, O mesmo Assunto.
7 de jul. de 2011
sobrou ração
eu busco respostas
mas só encontro
pêlos
sons que não existem
e a lembrança do cheiro de sol
eu subo no lugar mais alto da rua
conto os telhados
aguço os ouvidos
coro com cada latido
no computador eu assisto você
e dou mais assistência pra minha tristeza
é bobagem, dizem
nem é humano, pra que chorar?
quem diz isso não entende
que pra cada amigo meu
no grupo dos que partiram
no mínimo a metade não era gente.
mas só encontro
pêlos
sons que não existem
e a lembrança do cheiro de sol
eu subo no lugar mais alto da rua
conto os telhados
aguço os ouvidos
coro com cada latido
no computador eu assisto você
e dou mais assistência pra minha tristeza
é bobagem, dizem
nem é humano, pra que chorar?
quem diz isso não entende
que pra cada amigo meu
no grupo dos que partiram
no mínimo a metade não era gente.
21 de mar. de 2011
sessenta e poucos
escuro
miopia obrigatória
seus olhos se perdem, seus dedos não tocam em nada
você sussurra porque quebrar o silêncio dói
é facada.
mas você não resiste
e grita
incontáveis gumes na carne nua
cada gemido um recado
cada cômodo sem luz um desafio
é penoso ser só.
miopia obrigatória
seus olhos se perdem, seus dedos não tocam em nada
você sussurra porque quebrar o silêncio dói
é facada.
mas você não resiste
e grita
incontáveis gumes na carne nua
cada gemido um recado
cada cômodo sem luz um desafio
é penoso ser só.
18 de mar. de 2011
31 de jan. de 2011
1 de dez. de 2010
rotina
É manhã, é noite. Eu não me canso de você.
eu canso do travesseiro amassado. - não me canso de você.
canso das roupas espalhadas, dos calçados atirados, da louça suja.
-eu não me canso de você.
eu canso da música muito alta, do copo muito cheio, do lixo que transborda.
não me canso de você.
canso do corpo pesado, da falta de solidão, dos pêlos pelo chão. -não de você.
eu canso é da falta de grana todo mês, das economias frustradas, das frutas podres.
canso de cada pedaço meu que você não toca, canso da mesma posição todos os dias,
canso de esperar a porra que nem sempre vem. - eu não me canso de você.
de cada gesto seu eu canso. e canso dos meus gestos também.
-mas eu não me canso, nunca, de você.
eu canso do travesseiro amassado. - não me canso de você.
canso das roupas espalhadas, dos calçados atirados, da louça suja.
-eu não me canso de você.
eu canso da música muito alta, do copo muito cheio, do lixo que transborda.
não me canso de você.
canso do corpo pesado, da falta de solidão, dos pêlos pelo chão. -não de você.
eu canso é da falta de grana todo mês, das economias frustradas, das frutas podres.
canso de cada pedaço meu que você não toca, canso da mesma posição todos os dias,
canso de esperar a porra que nem sempre vem. - eu não me canso de você.
de cada gesto seu eu canso. e canso dos meus gestos também.
-mas eu não me canso, nunca, de você.
29 de nov. de 2010
escrever
Cada coisa que eu escrevo ou é pra você, pra você, pra você. Eu sei que no fundo é apenas sobre mim e o pinheirinho de natal que eu estou tentando comprar e nunca dá. Sobre as minhas frases mal feitas e a minha mania de comer até a barriga doer. Sobre a minha vontade de tomar vinho, ver você me servir e ficar sempre com o canto da boca manchado de vermelho. Eu não sei ter classe, você já percebeu isso. E então eu tento me distrair, te distrair, nos distrair e escrevo. Eu tento me distrair de você e do dinheiro que nunca sobra no fim do mês, mas geralmente o que eu consigo é bem menos do que eu desejo. E você nunca me lê.
10 de nov. de 2010
amanhecer com você
Eu acordo, olho para o lado e vejo aquela parte da cama onde os cobertores nunca ficavam intactos, onde o travesseiro sempre terminava amassado. Assim era você. Amanhecia nos finais de semana, o sol entrava pelas frestas empoeiradas das janelas do quarto -provavelmente mais nosso do que meu-, eu te beijava, você sorria, mas nunca acordava. Era dormindo que eu conseguia te ver melhor, com todos os detalhes que as expressões, o cansaço e o dia a dia não permitem. Dormindo você ficava mais doce. Minutos depois tocava o despertador e você sentava na cama assustado. Era sempre assim e eu adorava. Adorava sua cara amanhecida, suas falas desconexas e seu sorriso enorme com a barba mal feita. Então, eu sabia, havia chegado a hora mais esperada: você virava pra mim, olhava com os olhos mais inocentes e desconcertantes do mundo e perguntava: dormiu bem? Qualquer resposta sempre foi insignificante. Eu só queria, pro resto da minha vida, amanhecer com você.
31 de ago. de 2010
foi
Eu nem o conhecia direito. Mas acordei um dia e descobri que tinha se jogado na frente de um ônibus na noite anterior. Eu nem gostava dele, muito menos conversávamos. Mas acordei um dia e descobri que ele tinha ido embora, e -o que realmente importava- por vontade própria. Quando coisas assim acontecem poucas pessoas lamentam sinceramente por uma vida, mas sim se perguntam apenas "por quê", como se, depois do acontecido, isso realmente fizesse alguma diferença. A diferença está no antes. E o que me deixa triste é que eu acordei um dia e -finalmente- descobri.
Goodbye, sleep tight.
Cause surely, it's ain't just war.
18 de mar. de 2010
sobre a partida.
Tu foste embora e nem pude me despedir. Não tive como dar o último beijo, nem dizer palavras bonitas. Não tive como chorar tua partida. E então os dias passam e vai restando apenas uma dor no peito que não quer curar, um gosto amargo na boca, uma dúvida inquieta. Tu me fazia mais doce e por isso eu era feliz.
27 de fev. de 2010
de quando os sapatos de cristal fazem rachaduras
era medo? Ou era falta de amor? Aliás, amor – o que é isso? O jeito que me olha depois que me beija? O sorriso tímido, quase nulo - mas presente, que talvez só eu perceba-, que desprende quando conversamos sentados no bar? O jeito informal que poucos acham graça, todavia nós – abertamente estúpidos- adoramos nas cenas tão pequenas. Isso é amar? Porque se é, não é falta, não é carência, nem chega a ser solidão. É mais profundo, vai além. Não tem a ver com você, não tem a ver com qualquer outro ser. É quando se olha para o que se conquista e simplesmente não faz diferença. É querer estar onde não se pode estar, com quem não se pode estar, fazendo exatamente aquilo que –no futuro, quando alcançado- vai voltar a não ter importância alguma. É insatisfação existencial o nome disso. Falando assim parece expressão clichê de livro de psicologia. Mas vai definir como? Medo do agora? Ausência do futuro? Porque, repito, falta de amor não é. Não do que vem dos outros. Se for falta de amor, ah, então é próprio. Estar sozinho não é estar só.
31 de jan. de 2010
corrimento
há alguma razão em esperar uma resposta? ou eu devia ir buscar essa resposta nos livros, como fazia antigamente? Horas a fio tentando entender o que Aristóteles queria dizer no seu livro gama, tão adorado por todos os especialistas que não tinham mulheres para comer nem homens para chupar o pau. Há dias que essa realidade tão morbidamente desconexa me cansa mais que a real, mesmo que as duas sejam feita das mesma coisas: pessoas fugindo de si mesmas. E eu, sou o que? Você, só que num pano codificado pelo ostracismo de uma lente diferente: eu sei mentir melhor.
quando você não vem
então eu me arrumei toda e era pra ver você. Trajei meu vestido azul com cinta bonita em volta da cintura, minha sapatilha preta de camurça e meu laço de fita no cabelo. Mas você não apareceu. E eu fiquei lá espiando os transeuntes no bar. Todos com suas cervejas e gargalhadas, com suas falas altas de quem tinha o que dizer e pra quem dizer. Sorte que levei um livro, veja só. Eu, o bar, uma dose de vodka e Cortázar. Nada mais justo do que substituir o homem brasileiro mais gracioso pelo argentino do mesmo porte. Certamente, se você lesse isso, iria sorrir (e ficar lisonjeado) com a comparação. Só que a noite foi passando e foi me batendo um desespero, uma agonia que crescia e crescia e doía cada vez mais e havia as pessoas ébrias do bar e o Cortázar dizendo que eu devia beijar sua boca e a vodka que sempre enchia o copo e então o chão mais próximo e você que não vinha e a noite mais longa. Por que você fazia isso comigo? Por que eu fazia isso comigo? Por que a roda girava e eu não me decidia por um lugar, por alguém, por alguma coisa? A estória era sempre a mesma: amizade sincera mais sexo, profissão indefinida, dinheiro faltando, vida fodida. Cinco da manhã. "Com licença, estamos fechando o bar." Peguei minha bolsa, acendi um cigarro e -caminhando- fui embora.
21 de jan. de 2010
denominar.
E é um receio de voltar praí e não te encontar, de ter um bilhete sobre a cômoda dizendo "adeus". Não que alguma vez tu me concedeste um ingresso de3 passagem ao teu mundo, este todo cheio de pessoas exóticas, de efeitos proporcionados pelos melhores ácidos, envolto nos dragões mais vermelhos e, ao mesmo tempo, nas manhãs mais demoradas e mais silenciosas. O teu mundo nunca chegou a ser o meu, mas eu adorava. Nos mais simples detalhes. Talvez isso seja "estar apaixonado".
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