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14 de jul. de 2013

quarto

Era uma noite amena de inverno. Não chovia, não fazia frio nem calor e a umidade escorria pelas paredes velhas do apartamento alugado. A sala, vazia de almas humanas, absorvia a energia singular dos dois gatos, que - habituados à escuridão- corriam por entre os móveis jovens, mas gastos. A cozinha tinha as portas cerradas e guardava cheiros e sabores diversos. O bolo de laranja sob a mesa, as maçãs recém compradas no mercado, o quindim dentro da geladeira. No banheiro: restos humanos. Pêlos, unhas, pele. E o cheiro do sabonete vermelho. Do quarto vinha a luz do abajur ligado. A única iluminação da casa. Livros, blocos de anotações, os instrumentos musicais, as gavetas de meia. Cada coisa em seu lugar, bem como devia ser. Sob a cama, uma pessoa escrevia. Não tinha assunto, não tinha motivo, não tinha propósito e muito menos tinha dom. Mas escrever era expurgar os demônios, geralmente pensava. Era falar sobre nada pra pensar sobre tudo e, assim, conter o coração que frequentemente teimava em acelerar. O mundo é um lugar perigoso e viver machuca. Talvez o silêncio salve.

Apaguem o abajur.

"No alarms and no surprises
Silent silence"

7 de nov. de 2011

os outros

Vontade de ir pra Barcelona
pra (te) esquecer
ou correr até a esquina
e gritar
o guarda mais próximo vai ouvir
"a escova de dentes é só minha!"

vontade de comprar
lenços e mantas
calcinhas novas
uma dentição mais branca
e uma mala nova pra encher com todas essas coisas
e partir

você não tem tempo pra me dar
eu não tenho vontade de esperar
você perdeu o interesse
o meu eu vou matando
buquês de flores não são cambiáveis

que pena
o dos outros sempre é melhor

22 de set. de 2011

mergulhei

Era sábado. Eu tinha voltado pra casa dos pais. Acordei, abri os olhos devagar, pra não perder nenhum segundo daquela sensação de leveza e proteção. O sol entrava pelas frestas e o gato miava estranhamente pros passarinhos no quintal. A água da piscina parecia um espelho e na cozinha tinha cheiro de pão caseiro. Liguei o rádio e coloquei o cd com as músicas que eu escutava desde sempre. Os anos oitenta percorriam minha família de cidade em cidade e era impossível resistir. Abri todas as gavetas da casa atrás, talvez, de algum tesouro. Achei um punhado de cartas velhas e, junto, uma foto. Tu. Havia muitos outros, mas tu te destacavas. Tinha rosto de menino, mas teu olhar cansado sempre será inconfundível. Acho, inclusive, que tu já nasceste com esse olhar. Usavas as mesmas roupas de agora e teu cabelo parecia muito bem cuidado. Tua cara de adolescente não mentia: era um apaixonado. Talvez por uma guitarra, talvez por uma mulher. Impossível ter certeza. Parecia muito feliz. Feliz de um jeito que eu nunca vi. A vida, aos poucos, nos tira sorrisos e nos dá rugas. As tuas eu vejo descaradamente. As minhas: escondo de todos. Certamente ali, naquela foto, tua maior preocupação se resumia às gincanas e às meninas. Com as primeiras, tenho certeza, tu nunca tiveste problema algum. Já com as segundas: nunca te acertou. Nem hoje, nem ainda. Gostou de muitas, quis várias, foi amigo de quase todas, conquistou poucas. Não que tu não seja um bom sedutor, pelo contrário. Teu jeito de falar, beber e fumar (que é, nas noites de sábado, o que conquista uma garota) é tão peculiar e intenso que assusta. Dá qualquer coisa como um buraco no peito pensar em te magoar. Foi assim comigo e com todas. Ninguém quis a barra de te ter sempre por perto porque conviver com bondade e meiguice em excesso é perigoso. Mulher alguma cogitaria tomar isso de você porque nada -nem amor- pagaria um preço tão alto. Enfim, tu erraste justamente no que todo mundo almeja: ser acima da média. E meu erro foi rejeitar cada bom argumento pra me distanciar de ti e, correndo o risco, chegar o mais perto possível. Era óbvio pra todos que eu falharia. E falhei. Todavia eu não fico triste. Desperdiçar a vida no lamento é mais que triste: é doentio. Por isso, de ti, contigo ou longe, duas coisas não vou esquecer: cabelos cacheados precisam de condicionador diário e convívio íntimo afoga. É quase um mergulho sem volta.
E o sábado acabou.

3 de ago. de 2011

morra

eu quero que você morra
cortar-te em fatias
fritar na gordura
comer espumando
mordida. ou fúria.

eu quero que você morra
pra congelar cada pedaço seu
e num futuro bem próximo
sem gritos, tapas ou roxos escondidos
expor-te no museu de casos perdidos.

eu quero que você morra
mas antes implore

por misericórdia e compaixão
me peça beijos
gema de tesão
soluce de medo
relembre cada instante
perdão, perdão.

e antes de morrer
vai suplicar
vai exigir que eu prometa
que cada ônibus que passar
não seja o último.

(se você quiser me entender: ouça o que eu não digo)

30 de abr. de 2011

um dia com a joni mitchell

eu acordo cedo
branca de lençóis
ando pela casa
vazia
cito joni mitchell
os gatos miam
a tv liga
os jornais gritam
nublo-me
lá fora nubla
canto joni mitchell
os quadros borram
o vento esfria
roupa pra aquecer
café pra enegrecer
chocolate na boca
buraco na alma
leio joni mitchell
acendo velas
a água queima
o pêlo torra
pêlo por pêlo
agarro a joni mitchell
balanço a joni mitchell
destruo a joni mitchell
eu sou a joni mitchell
um dia com a joni mitchell
um dia sem você.

5 de fev. de 2011

o meu perdão é salgado

de cada copo que eu não quebrei,
de cada carta que eu não mandei,
de cada pedaço de frase crua que eu disse, alguém ouviu e chorou,
só sobra um remorso doído
um curativo que eu nunca poderei fazer
e abraços perdidos no ar de ausências pra sempre lembradas.

27 de jan. de 2011

Ménage à trois

Meu arrependimento maior é nunca ter feito um ménage à trois antes de gostar o suficiente de alguém e achar essa idéia no mínimo perigosa. Meus amores nunca foram importantes o tanto pra eu deixar de fazer algo. Eu sempre exigi que eles deixassem de fazer. Nunca deu certo, incrivelmente previsível. Meu carinho exageradamente palpável nunca foi suficiente pra alguém a ponto da minha rabugisse ser suportável. Meus bom-dias nunca são de manhã e minha cara não lavada significa mau humor. Se você acertar uma vez: pode ter certeza que vou lembrar de no mínimo duas em que você errou. Não sou querida e minha arrogância dói mais em mim do que meus pais acreditam quando dizem, depois de um mês e meio sem me ver, "não estrague nosso dia". Eu estrago. Eu não quero. Eu conserto quando parece impossível. Todo mundo esquece. Menos eu. Cada pessoa que eu beijei cumpriu da maneira mais incrível o papel de me detestar. Um dom memorável. Eu nunca fiz nada por mal, mas isso é daquelas coisas que não tem mínima importância. No mundo dos perdões dificilmente o motivo do erro tem importância. Menos ainda a intenção. E no fim o que fica de cada pessoa que eu desejei é uma indiferença monótona e, lá no fundo, uma nostalgia do que poderia ter sido e não foi. Porque eu não deixei. Hoje eu deixo. Pra entrar de cabeça em mim quando quiser. Hoje eu sou.

8 de jan. de 2011

uma carta.

estraguei você. nas noites de vinho, nas madrugadas gritadas, nas tardes inúteis de final de semana, na minha vontade sempre tão gigante pra tudo e qualquer coisa. estraguei você e foi sem querer, mas foi sabendo do risco. foi sabendo que na minha miudez de sugar o que podia, sem parar um instante, eu podia te ferir. e feri. eu podia acabar com os teus projetos, com os teus amigos, com as tuas noites de sexta, com a tua delicadeza ímpar. e acabei. eu sou destrutiva e isso não vai mudar. eu amo você e isso também não vai mudar. mas o brilho imenso de todos os dias passados, isso nunca, nunca, vai voltar. e assim eu espero por coisas novas. com você.




e chove.

20 de dez. de 2010

gostoso por inteiro

E eles me olhavam como se meu problema fosse maior do que não saber falar em público ou a minha garganta fechada toda vez que eu precisava cumprimentar alguém totalmente desconhecido. Seus olhos penetravam nos meus, eu virava a cabeça mas continuava a senti-los. Incessantes. Era a minha sina por ser tão distante. E quando eu tentava me aproximar, com piadas infames e gestos descontidos, era fracasso. Era sempre fracasso. E quando eu bebia não apenas pra me sentir melhor, mas pra me sentir melhor perto dos outros: era mais um fracasso. Minhas palavras nunca foram levadas à sério. Nem por você. Miseravelmente por mim. Menos ainda pelos outros. E sempre doeu.

gostoso por inteiro, sangrando em pedaços.

29 de nov. de 2010

escrever

Cada coisa que eu escrevo ou é pra você, pra você, pra você. Eu sei que no fundo é apenas sobre mim e o pinheirinho de natal que eu estou tentando comprar e nunca dá. Sobre as minhas frases mal feitas e a minha mania de comer até a barriga doer. Sobre a minha vontade de tomar vinho, ver você me servir e ficar sempre com o canto da boca manchado de vermelho. Eu não sei ter classe, você já percebeu isso. E então eu tento me distrair, te distrair, nos distrair e escrevo. Eu tento me distrair de você e do dinheiro que nunca sobra no fim do mês, mas geralmente o que eu consigo é bem menos do que eu desejo. E você nunca me lê.

23 de nov. de 2010

pra você

Quando até o jeito que eu escovo os dentes é pra você notar. Quando você faz questão que eu faça isso com a porta fechada.

21 de nov. de 2010

nunca ou bastante

eu queria que você escrevesse algo pra mim. você já escreveu pra tantas outras. por que não pra mim? e eu sei a resposta: "não é necessário". você sabe que já me ganhou inteira, sabe que eu te quis desde que você percorreu alguns poucos quilômetros pra rir comigo até tarde da noite -mesmo que aquilo tenha sido apenas uma boa consequência e que esse não era o objetivo inicial. Num tempo em que você só queria um pouco de sexo fácil (e, me convença do contrário, isso nunca há. não pra românticos que se apaixonam o tempo todo como você) eu ainda era interessante. eu podia oferecer algo raro. hoje a raridade é quando eu não acaricio teus cabelos no meio da noite. pra mim amor é o bastante, pra você: pra você é demais.

ela(s)

Minha mãe me ligou e notou a voz embaçada. Perguntou, como sempre: "chorando, Thaiani?" E eu menti, como sempre: "não, mãe, só uma gripe que acordou comigo hoje." Ela perguntou sobre a minha vida, sobre a vida de outros, sobre a minha vida junto com a vida de outros. Eu sempre digo que "vai tudo bem, mãe. Vai tudo bem". Ela sabe que aquela gripe indica o contrário, ela não se deixa enganar. Mas não insiste. Eu também não insisto. Então ela me conta que anda cansada, trabalho demais, vida demenos. Ela diz que queria mais amor. Eu digo pra ela não se iludir, que nunca há o suficiente. Ela ri. Nos despedimos. Ao desligar o telefone eu deito na cama e choro (mais). Por mim, por você e, antes de qualquer coisa, por nós.

You and I
We might be strangers
How ever close we get sometimes
(wilco)

11 de jul. de 2010

dorzinha

é que às vezes me dá uma dorzinha aqui dentro, sabe? ela começa pequeninha e vai crescendo, você nem vê. Ou finge que não vê. Fato é que eu prefiro apostar na primeira opção pra, obviamente, não doer mais ainda.

15 de mai. de 2010

O espelho.

E eu lembro que empurrava, empurrava e depois vomitava no vidro. Então ele disse: "vomita em mim. Tu precisas vomitar em alguém pra que isso cure, pra que não seja mais esse ciclo, essa dor que corta a carne e não cura nunca." Mas eu precisava de um vidro -que na verdade não era um vidro. Não. Eu precisava de um espelho. Eu precisava me ver borrada e vomitar. Eu precisava me ver errada e sem cor, eu precisava me ver nua e como eu era, mentirosa e vulgar, hipócrita e raivosa, odiosa. Só assim eu conseguia ser. E sendo eu podia viver. Mas, meu querido, era impossível viver sem vomitar no espelho. E o espelho não fazia parte de você.