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14 de jul. de 2013

quarto

Era uma noite amena de inverno. Não chovia, não fazia frio nem calor e a umidade escorria pelas paredes velhas do apartamento alugado. A sala, vazia de almas humanas, absorvia a energia singular dos dois gatos, que - habituados à escuridão- corriam por entre os móveis jovens, mas gastos. A cozinha tinha as portas cerradas e guardava cheiros e sabores diversos. O bolo de laranja sob a mesa, as maçãs recém compradas no mercado, o quindim dentro da geladeira. No banheiro: restos humanos. Pêlos, unhas, pele. E o cheiro do sabonete vermelho. Do quarto vinha a luz do abajur ligado. A única iluminação da casa. Livros, blocos de anotações, os instrumentos musicais, as gavetas de meia. Cada coisa em seu lugar, bem como devia ser. Sob a cama, uma pessoa escrevia. Não tinha assunto, não tinha motivo, não tinha propósito e muito menos tinha dom. Mas escrever era expurgar os demônios, geralmente pensava. Era falar sobre nada pra pensar sobre tudo e, assim, conter o coração que frequentemente teimava em acelerar. O mundo é um lugar perigoso e viver machuca. Talvez o silêncio salve.

Apaguem o abajur.

"No alarms and no surprises
Silent silence"

22 de set. de 2011

cindy lauper

cada gesto dela
os mais animados possíveis
cada sorriso seu
justificadamente cansados
são uma dança triunfal da única coisa que eu nunca tive: um passado de sorrisos compartilhados ao som de cindy lauper.

4 de set. de 2011

acaso

"Achamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pesa nada; supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é; que a nossa vida não era a mesma sem ele. Estamos todos convencidos de que o próprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu Es muss sein! em homenagem ao grande amor da nossa vida."

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

2 de mai. de 2011

depois dos vinte anos não se escrevem mais cartas de amor

Não cometa o erro considerável de, aos vinte anos, escrever uma carta de amor. com oito anos, plena infância, você conhece aquela menininha linda de rabo de cavalo e beiços maiores que a cara e tem certeza: a ama. Como poderia não amar? você não quer tocá-la, não faz sequer questão de conversar com ela. Apenas deseja um oi a cada três dias e poder sentar no mesmo banquinho no recreio. Pra terminar: manda um bilhete escrito "te amo" dentro de um coração. Pronto, sua primeira carta de amor. Então passam-se alguns anos e você nega o amor. Nega, nega, nega. "E as namoradinhas, paulo?" "que namoradinhas o quê" e sai vermelho. Você, menino delicado, só não pode ser delicado perto dos outros. Porque no quarto, à noite, na frente do computador, você chora ouvindo smiths, bate uma punheta e escreve o poema mais brega já criado. Porque a Claudinha é linda, você ama a Claudinha, a Claudinha tem olhos de jabuticaba, tem pele de pêssego, tem cheiro de hortelã e não é fresca, a Claudinha. Pena que a Claudinha não dá bola pra você (na verdade ela dá, você que não sabe). E então um dia você manda um continho seu pela internet pra Claudinha. Ela ri de você, mostra pras amigas, o colégio fica sabendo e você vira o menino-menina. Decide nunca mais olhar pras mulheres. Só que seus hormônios não querem saber disso. Eles precisam mostrar ao mundo (e a você) pra que existem (e como existem) e então você passa a querer comer consideravelmente muitas meninas do cursinho pré vestibular. Bundas e peitos passam a ter seu valor estético totalmente apreciado. Você esquece as palavras de amor e aprende a fazer sexo. Porque o segundo, com certeza, só se segue do primeiro em raríssimas ocasiões. O problema é que chega um dia em que você não se importa mais tanto com as mulheres e passa a se importar com aquela mulher. A sua mulher. Você só tem olhos pra ela. Porque ela tem bom gosto pra se vestir, porque ela sabe o que é bom musicalmente, porque -olha que criatura linda- ela sorri mais com o canto direito da boca. Você fica idiota e volta a escrever bobagens de amor. Você escreve uma carta pra ela. Ela responde. Vocês se encontram pra conversar. Vocês ficam juntos. Vocês não se casam. Aliás, vocês terminam meses depois. Ou vocês mantém o relacionamento por anos. Só que daí palavras de amor não são mais necessárias. Um 'te amo' ao deitar na cama pra dormir (e só isso) basta. Duas vezes por semana, porque você nem sempre lembra que é preciso dizer isso. Nem ela. E você nunca mais comete o erro de escrever cartas de amor. Porque você já tem mais de vinte anos. E com vinte anos cartas de amor não existem mais.

30 de abr. de 2011

um dia com a joni mitchell

eu acordo cedo
branca de lençóis
ando pela casa
vazia
cito joni mitchell
os gatos miam
a tv liga
os jornais gritam
nublo-me
lá fora nubla
canto joni mitchell
os quadros borram
o vento esfria
roupa pra aquecer
café pra enegrecer
chocolate na boca
buraco na alma
leio joni mitchell
acendo velas
a água queima
o pêlo torra
pêlo por pêlo
agarro a joni mitchell
balanço a joni mitchell
destruo a joni mitchell
eu sou a joni mitchell
um dia com a joni mitchell
um dia sem você.

23 de fev. de 2011

Abri os olhos e.

Abri os olhos, você não estava, adormeci de novo. Foi assim por uma semana ou um mês. Não sei. Todos os dias igualmente amargos. E então, de bruços na cama, eu imaginava cada coisa que você podia estar fazendo. Lembrava de cada sorriso sem os dentes, de cada grito sem desculpas, de cada taça de vinho sem suicídio, de cada mordida de gato sem sangue. Era mágico e eu não sabia. Você sabia, sussurrava em cada fim de tarde, e eu nunca me permiti acreditar. Confiar em você e em suas palavras doces era como declarar derrota. Orgulho demais pra engolir por outra pessoa. Mesmo por você. O moreno negro das noites de embriaguez, o amigo das lamentações amorosas, o mais charmoso entre todos sempre, o ciclista de temporadas e, enfim, o cara com quem eu ia me casar e realizar o sonho de princesa de toda mulher do século 20. Nem por você eu mudaria. Você não entendeu meus porquês confusos e partiu. Eu também não fui capaz de entender. Mas precisava ficar. E assim eu passava o resto de cada segundo dos meus dias: despertando e não vendo você, almoçando sozinha e derramando lembranças agora miseráveis por todos os cantos. Eu sentia falta.

5 de fev. de 2011

o meu perdão é salgado

de cada copo que eu não quebrei,
de cada carta que eu não mandei,
de cada pedaço de frase crua que eu disse, alguém ouviu e chorou,
só sobra um remorso doído
um curativo que eu nunca poderei fazer
e abraços perdidos no ar de ausências pra sempre lembradas.

7 de jan. de 2011

de sete vidas menos seis.

a minha xícara observa
tuas mãos - compridas
teu olhar - caído
teu sorriso - cansado
teu bocejo - negado
tua ira - contida
teu afeto
meus desejos
nossas vidas
perdidos.

21 de nov. de 2010

outro

E quando eu cliquei 'ler': tudo começou a desandar. Você, num passado incrivelmente recente, dizia coisas que não batiam com o presente. Era você? Era você mesmo quem afirmava a cada entrada de mês um amor diferente? Era você aquele que falava de sentimento desse jeito frouxo? Esse papel sempre foi meu. O que mais dói é esse masoquismo que tá sempre por aqui, sussurrando: vai, procura que tu acha. Pois eu achei. E lamento. Porque às três da manhã tudo é drama.

1 de ago. de 2010

como se vê

Nunca soube desenhar. Quando era pequena tentava. Rabiscava coisas bobas, copiava quadros infantis, usava pincéis e muitos lápis na tentativa nula de conseguir um resultado aparentemente satisfatório. De conseguir algo que se parecesse, nem que de longe, com uma imagem fácil de distinguir e chamar de "isto". Nunca teve êxito. Hoje, menos ainda. De tempos em tempos luta consigo mesma e pega uma caneta, responde à consciência pesada que não a deixa quieta e diz: "tudo bem, tentarei novamente". Fracassa. Dos seus traços tortos só saem borboletas marcadas, gatinhos feitos de bolinhas ovais e qualquer coisa de abstrata. Mas sorri, meio amarga. E esconde os desenhos numa pasta onde ninguém nunca os poderá ver.

Mil

Abro-me em tantas pra te receber. O rasgo da carne que me fazes é muito menor que a dor de manter os olhos sempre abertos. Pra ti: reservo-me.

11 de jul. de 2010

dorzinha

é que às vezes me dá uma dorzinha aqui dentro, sabe? ela começa pequeninha e vai crescendo, você nem vê. Ou finge que não vê. Fato é que eu prefiro apostar na primeira opção pra, obviamente, não doer mais ainda.

15 de mai. de 2010

Eu que não sou você

Vê? Vê como sou pouca, como me desfaço em migalhas de pão, aquelas mesmo ignoradas até pelos passarinhos? Vê como não sei alegrar ao outro, a fazê-lo sorrir e cantar uma canção, a chorar de emoção com meus gestos? Vê como meu abraço já perdeu a cor, como é fácil com ele se acostumar - e quando se acostuma se deixa de notar com aquela alegria de antes, com aquela fé de mágica nova, com aquele estremecimento de gozo difícil de alcançar. Vê como o meu divertimento é pequeno, como meu prazer é ralo, como sou fosca e superficial que nem água parada de lago quente? Eu sou é Macabéa, e tu vais me deixar pela primeira bunda alegre que bailar pelo salão ao som de qualquer música saltitante. Eu não me contento com pouco, mas não percebo que o mais é muito para mim. Eu sou sozinha. Eu me perco dentro da solidão do mundo de mim. Escrito numa quarta-feira, alguns anos atrás.

O espelho.

E eu lembro que empurrava, empurrava e depois vomitava no vidro. Então ele disse: "vomita em mim. Tu precisas vomitar em alguém pra que isso cure, pra que não seja mais esse ciclo, essa dor que corta a carne e não cura nunca." Mas eu precisava de um vidro -que na verdade não era um vidro. Não. Eu precisava de um espelho. Eu precisava me ver borrada e vomitar. Eu precisava me ver errada e sem cor, eu precisava me ver nua e como eu era, mentirosa e vulgar, hipócrita e raivosa, odiosa. Só assim eu conseguia ser. E sendo eu podia viver. Mas, meu querido, era impossível viver sem vomitar no espelho. E o espelho não fazia parte de você.

27 de fev. de 2010

de quando os sapatos de cristal fazem rachaduras

era medo? Ou era falta de amor? Aliás, amor – o que é isso? O jeito que me olha depois que me beija? O sorriso tímido, quase nulo - mas presente, que talvez só eu perceba-, que desprende quando conversamos sentados no bar? O jeito informal que poucos acham graça, todavia nós – abertamente estúpidos- adoramos nas cenas tão pequenas. Isso é amar? Porque se é, não é falta, não é carência, nem chega a ser solidão. É mais profundo, vai além. Não tem a ver com você, não tem a ver com qualquer outro ser. É quando se olha para o que se conquista e simplesmente não faz diferença. É querer estar onde não se pode estar, com quem não se pode estar, fazendo exatamente aquilo que –no futuro, quando alcançado- vai voltar a não ter importância alguma. É insatisfação existencial o nome disso. Falando assim parece expressão clichê de livro de psicologia. Mas vai definir como? Medo do agora? Ausência do futuro? Porque, repito, falta de amor não é. Não do que vem dos outros. Se for falta de amor, ah, então é próprio. Estar sozinho não é estar só.

31 de jan. de 2010

quando você não vem

então eu me arrumei toda e era pra ver você. Trajei meu vestido azul com cinta bonita em volta da cintura, minha sapatilha preta de camurça e meu laço de fita no cabelo. Mas você não apareceu. E eu fiquei lá espiando os transeuntes no bar. Todos com suas cervejas e gargalhadas, com suas falas altas de quem tinha o que dizer e pra quem dizer. Sorte que levei um livro, veja só. Eu, o bar, uma dose de vodka e Cortázar. Nada mais justo do que substituir o homem brasileiro mais gracioso pelo argentino do mesmo porte. Certamente, se você lesse isso, iria sorrir (e ficar lisonjeado) com a comparação. Só que a noite foi passando e foi me batendo um desespero, uma agonia que crescia e crescia e doía cada vez mais e havia as pessoas ébrias do bar e o Cortázar dizendo que eu devia beijar sua boca e a vodka que sempre enchia o copo e então o chão mais próximo e você que não vinha e a noite mais longa. Por que você fazia isso comigo? Por que eu fazia isso comigo? Por que a roda girava e eu não me decidia por um lugar, por alguém, por alguma coisa? A estória era sempre a mesma: amizade sincera mais sexo, profissão indefinida, dinheiro faltando, vida fodida. Cinco da manhã. "Com licença, estamos fechando o bar." Peguei minha bolsa, acendi um cigarro e -caminhando- fui embora.

21 de jan. de 2010

denominar.

E é um receio de voltar praí e não te encontar, de ter um bilhete sobre a cômoda dizendo "adeus". Não que alguma vez tu me concedeste um ingresso de3 passagem ao teu mundo, este todo cheio de pessoas exóticas, de efeitos proporcionados pelos melhores ácidos, envolto nos dragões mais vermelhos e, ao mesmo tempo, nas manhãs mais demoradas e mais silenciosas. O teu mundo nunca chegou a ser o meu, mas eu adorava. Nos mais simples detalhes. Talvez isso seja "estar apaixonado".

6 de jan. de 2010

do adeus

Eu ando me sentindo livre. E é uma liberdade tão boa de poder olhar os retratos velhos dos meus pais sobre a cômoda do quarto, de acordar tarde nos dias da semana, de pintar uns desenhos sem sentido nenhum e não precisar dar satisfação a ninguém sobre o que aquele exato rabisco ali quer dizer. Essa liberdade me fazia tanta mas tanta falta um tempo atrás que não sei nem explicar, que não cabe em palavras, em gestos, em olhares, não cabe em uma caixa bonita toda enfeitada com laços de fita. Acho que só cabe no que eu sinto agora, nessa lágrima que está deslizando quente pelo meu rosto nesse exato momento. É a lágrima mais liberta que eu já deixei pingar. Adeus.

29 de dez. de 2009

nada pó

queria fazer poesia, mas só sabia falar de si. Suas dores, suas roupas, suas cores, sua magia inventada, irreal, deslocada. Queria fazer contos, mas as estórias eram sempre iguais: romances, tragédias, e os personagens: imutáveis, desapercebidos do ódio e da dor que quem sentia era ela. Não havia enredo porque não havia o que contar. Não ia além do óbvio, do igual de cada dia. Todavia, também não era superficial. Simplesmente era nulo, era inerte, era vago e parado, era nada. Isso, a vida dela era um nada. E então entrava num dramalhão -quem nem mexicano, nem cubano, (nem brasileiro mesmo chegava a ser)-, numa descortesia com seus próximos, com seus íntimos e explodia. em êxtase? Não, em pó. E retornava, no outro dia, ao parado. Se ela se importava? Claro que sim! Mas não o bastante pra mudar. Pois só se dava conta do terrível, do exdrúxulo, do ínfimo que a fazia querer uma mudança lógica e rápida quando estava sem saída alguma, quando não adiantava mais (mesmo que, ora, sempre haja uma saida). Do pó ao nada, do nada ao pó e do pó ao pó e do nada ao nada e o pó o pó e o nada o pó o pó e nada nada nada.

27 de nov. de 2009

como é.

e se eu dissesse que sinto falta? tu dirias que faz tão pouco, que se encaixa em mudo de mundo de caixas marfim. Ah, tu dirias que não faz sentido, que é bobagem tola minha, sempre falando pelos cotovelos quando estou assim, em dias de hormônios alterados. E vá molhar as plantas e tirar fotos, ou pegar os primeiros acordes ou fazer aquela nota aguda que tu nunca alcanças, dirias. Tu me repreende e eu vou. mas tua beleza não física, teu pêlos crespados de emoção que tu diz não não sentir, me fazem sempre voltar. E tu aceitas. Aceitando: é recíproco.